Com quase 380 milhões de usuários ativos por mês, um modelo de receita muito mais diversificado que o do YouTube e uma expansão internacional que já colocou o Brasil no radar, o Bilibili deixou de ser um nicho de fãs de anime para se tornar um dos nomes mais comentados do entretenimento digital em 2026. Entenda o fenômeno, veja como criar sua conta e descubra por que a plataforma consegue lucrar de tantas formas diferentes

Se você nunca ouviu falar do Bilibili, é bem provável que passe a ouvir bastante em breve. A plataforma de vídeos chinesa, fundada em 2009 e conhecida havia anos apenas por um público de nicho apaixonado por anime e cultura pop asiática, está no meio de uma das expansões internacionais mais agressivas do setor de streaming em 2026 — e o Brasil está oficialmente na lista de prioridades da empresa.
A companhia relançou neste mês seu aplicativo internacional, prepara uma versão de seu site em inglês e começou a contratar profissionais em cidades como São Paulo, Los Angeles, Londres, Cidade do México, Istambul e Tóquio. Não é um movimento pequeno: os movimentos indicam uma tentativa de transformar uma plataforma ainda fortemente associada ao público chinês em um concorrente global de serviços como YouTube e TikTok, sobretudo na disputa por criadores de conteúdo.
Este artigo explica os três ângulos que tornam o Bilibili um caso interessante de acompanhar agora: como a plataforma conquistou a lealdade da Geração Z chinesa, como criar uma conta e assistir ao conteúdo fora da China, e por que o modelo de receita da empresa é consideravelmente mais diversificado do que o de concorrentes ocidentais como o próprio YouTube.
O gigante que a Geração Z chinesa não larga
Os números de engajamento do Bilibili chamam atenção justamente por fugirem do padrão comum entre redes sociais e plataformas de vídeo curto. No primeiro trimestre de 2026, o Bilibili informou ter mais de 376 milhões de usuários ativos mensais, enquanto a média diária de uso chegou a 119 minutos por usuário — praticamente duas horas por dia, um patamar de engajamento raramente visto fora do universo de jogos ou de redes como TikTok.

O CEO Rui Chen afirmou que a empresa entrou em 2026 com forte momentum, com o engajamento dos usuários e a qualidade do conteúdo continuando a melhorar, e que o engajamento diário atingiu um recorde histórico no trimestre, com uso médio próximo de duas horas por dia. Segundo ele, a estratégia “comunidade em primeiro lugar” da empresa, somada aos investimentos em conteúdo de alta qualidade, ajudou a aprofundar o engajamento com o público mais jovem.
O que faz o Bilibili ser diferente do YouTube
Na superfície, a comparação com o YouTube faz sentido: assim como no YouTube, o Bilibili reúne criadores independentes, vídeos de diferentes categorias, transmissões ao vivo e uma comunidade que interage com as publicações. Mas a diferença está na identidade construída pela plataforma — o conteúdo relacionado a animes, games e cultura pop asiática continua tendo grande importância, enquanto a empresa também investe em documentários, entretenimento e produções originais.
O verdadeiro diferencial técnico, porém, está em uma função específica chamada danmu. É um recurso que permite que comentários de outros espectadores voem pela tela em tempo real, diretamente sobre o vídeo, sincronizados com o exato momento em que foram escritos. Pode parecer caótico à primeira vista, mas é exatamente esse o objetivo: é como assistir a um filme no cinema cercado de amigos comentando cada cena, só que esses “amigos” podem ser milhares de pessoas conectadas ao mesmo tempo. Segundo diversos analistas, essa sensação de comunidade instantânea é uma das razões pelas quais o Bilibili conseguiu construir tanta lealdade entre o público mais jovem.

De prejuízo bilionário a primeiro lucro anual
O interesse do mercado pelo Bilibili em 2026 também tem uma explicação financeira. A empresa fechou 2025 com seu primeiro lucro anual desde a abertura de capital: a receita cresceu 13%, para quase US$ 4,476 bilhões, com lucro líquido de US$ 175,5 milhões. Para colocar essa guinada em perspectiva: entre 2018 e 2024, o Bilibili acumulou prejuízos superiores a 25 bilhões de yuans, cerca de US$ 3,7 bilhões. É esse fôlego financeiro recém-conquistado que parece ter dado à empresa confiança para investir pesado em expansão internacional.

Guia prático: como criar conta e assistir ao Bilibili fora da China
Para quem quer experimentar a plataforma, o caminho de entrada mudou — e ficou mais simples — recentemente. O aplicativo internacional foi relançado globalmente em agosto de 2026, inicialmente para Android, com uma versão para iOS prevista para chegar posteriormente. A nova versão promete conteúdo distribuído internacionalmente, melhorias na localização e um processo de cadastro mais simples.
Passo a passo básico
- Baixe o aplicativo internacional. No momento, a versão global está disponível prioritariamente para Android; usuários de iPhone ainda dependem do lançamento futuro da versão para iOS.
- Crie sua conta. O processo de cadastro foi simplificado especificamente para o público fora da China, sem exigir os mesmos requisitos usados na versão doméstica chinesa do aplicativo.
- Explore o catálogo internacional. Segundo dados divulgados pelo próprio Bilibili, a companhia já havia distribuído 177 títulos de animação chinesa original internacionalmente até o fim de 2025, com legendas em 15 idiomas e dublagem em 11 — o que inclui, cada vez mais, conteúdo dublado especificamente para o público brasileiro.
- Ative o danmu (opcional). Essa é a função que diferencia a experiência do Bilibili de qualquer plataforma ocidental — vale a pena testar antes de decidir se prefere assistir com os comentários flutuantes ativados ou desativados.
- Siga criadores e canais de conteúdo asiático e ocidental. Diferente da imagem de “site só de anime”, o catálogo já inclui documentários, reviews de tecnologia, tutoriais e entretenimento em geral. Ao contrário de plataformas de vídeos curtos como o TikTok e o Kwai, o Bilibili aposta em conteúdos aprofundados, séries de animação exclusivas, documentários, reviews de produtos, tutoriais de programação e transmissões ao vivo produzidas por criadores independentes e estúdios profissionais.
Por que o Brasil especificamente?
A escolha do Brasil como mercado prioritário não é aleatória. A iniciativa busca captar parte do grande mercado digital brasileiro, ampliando seu ecossistema de entretenimento além do público chinês — e o país já é historicamente um dos territórios mais ativos do mundo em consumo de anime, streaming e criação de conteúdo, o que faz dele um alvo natural para essa fase de expansão.
Foco em negócios: como o Bilibili lucra de formas que o YouTube não explora
Esse é, talvez, o ângulo mais interessante para quem acompanha o setor de tecnologia e mídia: o Bilibili construiu um modelo de receita significativamente mais diversificado do que o modelo predominantemente publicitário do YouTube — e essa diversificação é justamente o que sustenta sua guinada recente para o lucro.
As múltiplas frentes de monetização
Publicidade tradicional. Uma parte significativa da receita vem de publicidade, onde marcas pagam para promover seus produtos através de anúncios exibidos na plataforma, beneficiando-se de um público jovem altamente engajado. Esse braço, aliás, está crescendo rápido: a receita de publicidade cresceu 30% ano a ano no primeiro trimestre de 2026, um ritmo bem acima da média do setor.
Presentes virtuais em transmissões ao vivo. A empresa gera receita através de seus serviços de transmissão ao vivo — usuários podem comprar “presentes virtuais” para enviar aos criadores durante as transmissões, um modelo de monetização direta entre fã e criador que praticamente não existe na estrutura tradicional do YouTube.
Assinatura premium (VIP). O Bilibili oferece assinatura de conteúdos premium, em que os usuários podem pagar por uma experiência sem anúncios — um modelo híbrido, parecido com o YouTube Premium, mas combinado com acesso antecipado a séries de animação exclusivas.
Jogos. Diferente da maioria das plataformas de vídeo ocidentais, o Bilibili também opera como distribuidora e publisher de jogos para dispositivos móveis, uma fonte de receita relevante o suficiente para ser citada regularmente nos relatórios financeiros da empresa como um dos pilares centrais ao lado da publicidade.
E-commerce integrado. Essa é a frente mais recente e talvez a mais reveladora da estratégia da empresa. O Bilibili lançou seu festival de compras “Double 11”, estreando uma integração de dados avançada com grandes players de e-commerce como Alibaba e JD.com, oferecendo a marcas e varejistas acesso direto a indicadores importantes de performance. O movimento aproveita a base de usuários majoritariamente da Geração Z do Bilibili, apresentando novas oportunidades de engajamento e monetização mais profundos no ecossistema interativo em expansão da plataforma.
Essa combinação de fontes de receita é o que os analistas de mercado apontam como o principal motivo de confiança na sustentabilidade financeira do Bilibili daqui para frente: ser acionista do Bilibili significa acreditar na lealdade sustentada e no poder de consumo do público chinês da Geração Z e da geração millennial mais jovem, e na capacidade da empresa de monetizar sua plataforma interativa através de jogos, publicidade e, agora, de uma integração mais profunda de e-commerce.

A estratégia de conquistar criadores para acelerar a expansão
A expansão internacional do Bilibili não depende só de usuários — depende de convencer criadores de conteúdo relevantes a produzir para a plataforma. Por isso, o movimento mais chamativo dessa fase é a aproximação com nomes de peso do YouTube ocidental: a Bilibili mira expansão global com parcerias envolvendo criadores como Mr. Beast e começa a contratar no Brasil, num esforço direto de disputar talento e audiência com o próprio YouTube em seu terreno de origem.

O contraponto: os desafios de crescer como empresa chinesa no Ocidente
Nem tudo é vantagem competitiva nessa expansão, e vale um ponto de equilíbrio importante. O avanço internacional também coloca o Bilibili diante de questões que outras empresas chinesas de tecnologia enfrentaram ao crescer no Ocidente — temas como moderação de conteúdo, tratamento de dados e influência das regras chinesas sobre plataformas internacionais podem se tornar parte da discussão à medida que o serviço conquista usuários em mercados como Estados Unidos e Europa.
O caso mais conhecido é o do TikTok: durante anos, a plataforma controlada pela chinesa ByteDance enfrentou pressão de autoridades americanas sobre a segurança dos dados de usuários e o funcionamento de seus algoritmos, culminando em um acordo, concluído em janeiro de 2026, para separar suas operações nos Estados Unidos. Não é garantido que o Bilibili enfrentará o mesmo nível de escrutínio regulatório — a natureza do conteúdo e o porte da empresa são diferentes —, mas é um precedente que qualquer plataforma chinesa buscando crescimento no Ocidente hoje precisa levar em conta desde o início da estratégia.
Além disso, competir por atenção e por criadores em mercados já dominados por YouTube, TikTok e Instagram não é trivial, mesmo com um produto diferenciado. A base de usuários fiel na China não se transfere automaticamente para mercados onde o público ainda nem conhece a marca — o que explica por que a empresa está investindo tão pesado em contratações locais e parcerias com criadores já estabelecidos, em vez de depender apenas do crescimento orgânico.
Checklist: o Bilibili é para você?
- Você gosta de conteúdo mais longo e aprofundado? A plataforma foca em vídeos de formato longo, documentários e séries — não é o lugar ideal para quem busca só conteúdo de vídeo curto.
- Você tem interesse em anime, cultura pop asiática ou jogos? Esse continua sendo o núcleo mais forte do catálogo, mesmo com a diversificação recente.
- Você se incomoda com comentários sobrepostos ao vídeo? O danmu é a marca registrada da plataforma — vale testar antes de decidir se é para você, já que pode ser desativado.
- Você já usa serviços de streaming chineses ou de cultura asiática? Se sim, o catálogo com dublagem em português e legendas ampliadas pode ser um diferencial real frente a outras opções disponíveis no Brasil.
- Você acompanha criadores internacionais que já estão migrando de plataforma? Com nomes como Mr. Beast entrando na conversa, vale ficar de olho em quem mais migra ou expande presença para o Bilibili nos próximos meses.
Perguntas frequentes
O Bilibili é gratuito?
Sim, o uso básico é gratuito, com a plataforma sendo majoritariamente sustentada por publicidade. Existe também uma assinatura premium (VIP) opcional para quem quer uma experiência sem anúncios e acesso antecipado a determinados conteúdos.
Preciso saber chinês para usar o aplicativo?
Não necessariamente. A versão internacional relançada em 2026 foi criada justamente para melhorar a localização, com conteúdo legendado e dublado em vários idiomas, incluindo português.
O Bilibili só tem conteúdo de anime?
Não mais. Embora o anime, os games e a cultura pop asiática continuem sendo o núcleo histórico da plataforma, o catálogo já inclui documentários, entretenimento, reviews de tecnologia e produções originais voltadas a um público mais amplo.
O Bilibili é seguro em relação a dados pessoais?
Como toda plataforma de origem chinesa expandindo para mercados ocidentais, o tema de tratamento de dados e moderação de conteúdo tende a receber atenção regulatória crescente — um contexto parecido, ainda que não idêntico, ao enfrentado pelo TikTok nos Estados Unidos.
O Bilibili está disponível para iPhone no Brasil?
No momento do relançamento internacional, em agosto de 2026, a prioridade foi o Android, com uma versão para iOS prevista para chegar posteriormente.
Conclusão
O Bilibili chega a este momento de expansão internacional em uma posição rara: uma base de usuários gigantesca e extremamente engajada, um modelo de receita muito mais diversificado do que o de concorrentes ocidentais como o YouTube, e um fôlego financeiro recém-conquistado depois de anos de prejuízo. É essa combinação — comunidade fiel, monetização multifacetada e caixa saudável — que parece justificar a aposta agressiva da empresa em mercados como o Brasil.
Ainda é cedo para saber se o Bilibili vai conseguir replicar, fora da China, o mesmo nível de lealdade que construiu com a Geração Z chinesa — e os desafios regulatórios enfrentados por outras plataformas chinesas no Ocidente são um lembrete de que essa expansão não será só uma questão de bom conteúdo. Mas para quem acompanha tendências de tecnologia e mídia, vale a pena manter o Bilibili no radar: dificilmente uma plataforma com quase 380 milhões de usuários ativos por mês e um modelo de negócio tão fora do padrão passa despercebida por muito tempo.
